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Stella do Patrocínio: a poeta da clausura 

Stella do Patrocínio passou mais de 30 anos internada em manicômios. Mulher negra, pobre, diagnosticada como esquizofrênica, foi silenciada em vida, mas sua memória sobrevive.

Stella do Patrocínio: a poeta da clausura 

25 de maio de 2025

Por desinstitute

Stella do Patrocínio nasceu em 1941, em Petrópolis (RJ). Era mulher negra, pobre, filha de empregada doméstica. Foi internada pela primeira vez ainda jovem, após a morte da mãe e conflitos com a patroa para quem trabalhava.

Aos 21 anos, foi internada no Hospital Psiquiátrico Pedro II. Passou quase toda a vida adulta em instituições psiquiátricas. Recebeu o diagnóstico de esquizofrenia e foi submetida a contenções, eletrochoques e isolamento.

Stella viveu por mais de 30 anos no manicômio Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Nesse tempo, quase não recebeu visitas nem teve contato com familiares. Sua vida foi marcada pela invisibilidade e abandono institucional.

Seu modo de falar era único: falava em fluxo contínuo, com frases longas, repetições e ritmo próprio e forte. Era vista por muitos como alguém que “divagava”, mas sua fala expressava experiências concretas de sofrimento, crítica e memória.

Nos anos 1980, durante oficinas de arte com a terapeuta Nise da Silveira e com o poeta e músico Victor Giudice, suas falas começaram a ser gravadas e transcritas. Anos depois, isso daria origem ao livro “Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome”, publicado postumamente em 2001.

A obra de Stella passa pela poesia, loucura e denúncia social. Seus relatos abordam racismo, violência manicomial, opressão patriarcal, colonialismo, religião e o confinamento como forma de controle.

Seu livro tornou-se referência na literatura contemporânea brasileira e também em estudos sobre gênero, raça e saúde mental. Mas, em vida, Stella nunca foi reconhecida como autora nem recebeu os direitos por sua produção.

Stella do Patrocínio morreu em 1992, ainda internada. Foi enterrada como indigente. Seu nome e sua obra só ganharam projeção quase uma década depois de sua morte.

A história de Stella expõe o apagamento sistemático de mulheres negras institucionalizadas. Mas Stella era resistência, criação e memória coletiva.

 

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