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A guerra às drogas nunca foi sobre drogas, mas sobre quem o Estado escolhe eliminar
O massacre no Rio de Janeiro expõe a necropolítica brasileira, que transforma a “guerra às drogas” em máquina de extermínio e faz da morte de pessoas negras e periféricas sua principal política de segurança, o que compromete qualquer possibilidade de saúde mental coletiva.

30 de outubro de 2025
O Rio de Janeiro vive uma das maiores chacinas da história recente do país. Em apenas um dia, mais de 120 pessoas foram mortas, superando o número de vítimas do massacre do Carandiru (1992). O governador Cláudio Castro está transformando o horror em espetáculo, fazendo da periferia um necrotério e ao mesmo tempo palanque político.
O que acontece no Rio trata-se de uma política deliberada, sustentada pela necropolítica, conceito formulado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, que descreve o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer. No Brasil, esse poder tem cor, endereço e classe social.
A “guerra às drogas” é a justificativa ideológica para uma necropolítica que, embora se apresente como combate ao tráfico, funciona como um instrumento de controle social e uma economia da morte. Longe de eliminar o lucro, essa guerra apenas redefine quem pode obtê-lo. O Estado se beneficia politicamente do medo, enquanto empresas privadas lucram com a militarização. As milícias, que surgem do próprio aparelho policial, exploram territórios e vidas. Esse é um ciclo vicioso que se alimenta da própria violência que supostamente busca combater.
Enquanto o crime se organiza e lucra em zonas nobres, paraísos fiscais e gabinetes, o Estado falha em combatê-lo eficazmente nestes locais. Em vez disso, opta por invadir favelas com helicópteros e fuzis, sem estratégia, inteligência ou política pública clara. Tal abordagem parece ser parte de um projeto de poder que tem governado o Rio por mais de duas décadas.
Essa política de extermínio gera apenas dor e medo. O medo, por sua vez, é instrumentalizado como método de governo por um Estado que, em nome da “ordem”, mata, tortura e aterroriza sua própria população.
A guerra às drogas nunca foi sobre drogas, mas sobre quem o Estado escolhe eliminar. Essa é a verdadeira face da guerra às drogas: uma estratégia que visa não as substâncias em si, mas a eliminação de grupos específicos escolhidos pelo Estado.
A descriminalização das drogas, embora não resolva sozinha o problema da violência urbana, é passo indispensável para desmontar o pretexto que sustenta essa máquina de morte. Nenhuma política de segurança pública será efetiva enquanto a vida nas favelas for tratada como descartável.
Não é possível haver saúde mental em um Estado que considera a morte em massa uma resposta natural à violência.