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EUA na Venezuela e a guerra às drogas como instrumento do avanço do imperialismo

O sequestro de Maduro expõe a militarização da política externa, o imperialismo dos EUA e abre precedente perigoso para a América Latina

EUA na Venezuela e a guerra às drogas como instrumento do avanço do imperialismo

5 de janeiro de 2026

Por desinstitute

A invasão militar dos Estados Unidos em território venezuelano que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro marca um ponto de ruptura nas normas que regem as relações internacionais e acende um alerta para toda a América Latina.

As autoridades norte-americanas justificaram a operação como parte de uma ofensiva contra o narcotráfico, acusando Maduro de dirigir um “narcoestado” e organizar o tráfico e violência. Essa narrativa, ao contrário do que foi divulgado, carece de evidências públicas que conectem diretamente o governo venezuelano a uma ameaça concreta à segurança dos EUA.

Especialistas de direito internacional qualificam a operação como violação da soberania venezuelana e do status quo jurídico que proíbe o uso da força sem autorização do Conselho de Segurança da ONU ou consentimento do Estado afetado.

A operação desencadeou bombardeios em bases e centros urbanos na capital Caracas, relatos de mortes entre as forças de segurança venezuelanas e a subsequente detenção de Maduro em solo americano para responder a acusações penais. Esse movimento remete a padrões históricos de intervenção, incluindo a invasão do Panamá em 1989, mas em um contexto regional onde as instituições multilaterais e a governança democrática enfrentam desafios crescentes. 

Há uma evidente contradição entre o discurso de combate às drogas e os efeitos geopolíticos dessa ação. A lógica da “guerra às drogas”, que já foi usada para justificar políticas repressivas internas e intervenções externas ao longo de décadas, funciona aqui como carta branca para autoridade militar unilateral. Essa lógica tem servido historicamente como pretexto para violar direitos humanos, sustentar prisões arbitrárias e agora para legitimar um ataque a um Estado soberano. Em um contexto como o brasileiro, em que a criminalização agravada de comunidades inteiras foi normalizada em nome desse combate, a ofensiva dos EUA demonstra como a retórica da segurança pode ser instrumentalizada para agendas estratégicas mais amplas, inclusive a assertiva de controle de recursos naturais e influência política.

A reação internacional foi imediata e preocupante. Chefes de Estado e juristas denunciaram o episódio como “precedente extremamente perigoso” que ameaça a paz regional e fragiliza o arcabouço jurídico que protege a soberania dos países. Para líderes da América Latina, a mensagem implícita é de que as potências hegemônicas podem violar fronteiras e retirar chefes de Estado sem mandatos multilaterais, sob a justificativa de segurança, sem diálogo ou respeito à autodeterminação dos povos.

Essa operação traz implicações diretas para os debates sobre política de drogas, soberania e direitos humanos. Confronta a narrativa de que a criminalização e a militarização podem produzir segurança real e expõe como interesses econômicos e estratégicos se entrelaçam com discursos de proteção. A América Latina, que carrega uma longa história de intervenções e imposições externas, deve interpretar esse evento não apenas como um caso isolado, mas como parte de uma tendência que pode ressignificar relações de poder na região.

Esse episódio também abre uma oportunidade para aprofundar o debate sobre a lógica da guerra às drogas no cenário global e, sobretudo, na América Latina, região que há décadas arca com os custos humanos, sociais e políticos desse modelo. A militarização do controle de drogas tem produzido instabilidade, fortalecido práticas autoritárias e ampliado violações de direitos, ao mesmo tempo em que fracassa em seus objetivos declarados. Diante de ataques recorrentes à soberania, às comunidades e às políticas públicas de cuidado, torna-se urgente questionar esse paradigma e construir respostas que não se sustentem na violência, na exceção e na negação de direitos da população latinoamericana.

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