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A crise climática deixou de ser uma projeção para o futuro e se tornou a realidade do presente absoluto.
Em 2026, o Brasil pode enfrentar um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas: o Super El Niño.

9 de setembro de 2026
Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño altera drasticamente a circulação atmosférica e modifica o regime de chuvas e temperaturas em todo o planeta.
Os dados atuais da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontam para uma imensa onda Kelvin subsuperficial com temperaturas entre 6°C e 8°C acima da média histórica, além de uma probabilidade de 63% de que o fenômeno atinja a intensidade “muito forte” até o início do próximo ano.
No Brasil, isso se traduz em um violento efeito gangorra, pois enquanto as regiões Norte e Nordeste enfrentam secas severas, temperaturas recordes e risco crítico de incêndios florestais, o Sul e partes do Sudeste sofrem com tempestades e enchentes torrenciais.
Para além dos impactos econômicos e estruturais amplamente divulgados pela mídia, há uma dimensão invisibilizada no que diz respeito à saúde mental da população. Os relatórios do Lancet Countdown e da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que eventos climáticos extremos funcionam como potentes gatilhos e agravantes para o sofrimento psíquico. A percepção contínua de ameaça ambiental gera um estado crônico de eco-ansiedade, enquanto a vivência de tragédias agudas, como os deslizamentos de terra e as grandes inundações, resulta em taxas alarmantes de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e depressão devido à perda traumática de familiares e de todos os bens materiais.
Há também o sofrimento psicológico da solastalgia, que é a dor de ver o próprio ambiente doméstico transformado de forma destrutiva. Além disso, a própria exposição ao calor extremo afeta diretamente a neurobiologia humana, alterando os ciclos de sono, aumentando os níveis de cortisol (o hormônio do estresse) e estando diretamente relacionada ao aumento de sofrimento psíquico pré-existente.
No entanto, esses impactos não se distribuem de forma igualitária, sendo fortemente mediados pelas desigualdades estruturais do país. Este cenário evidencia o racismo ambiental, uma vez que as populações negras, periféricas e tradicionais são as que estão na linha de frente dos danos. Nas grandes cidades, a segregação socioespacial empurra a população negra e de baixa renda para áreas de risco geomorfológico, como encostas de morros e margens de córregos sem saneamento adequado.
O impacto mental nessas comunidades manifesta-se como o “terror da chuva”, um medo crônico e paralisante de que a casa desabe a qualquer momento e o luto cíclico por perdas materiais conquistadas com muito esforço. Já no Norte e Nordeste, as secas extremas afetam diretamente povos indígenas e comunidades quilombolas, provocando a perda da soberania alimentar pela seca dos rios e destruição da agricultura de subsistência, o que atua como um forte precursor de depressão estrutural. Para essas populações, a saúde mental está intrinsecamente ligada à floresta em pé e à terra saudável, e a destruição desses ecossistemas gera uma ruptura cultural e espiritual profunda.
Essa vulnerabilidade gera uma cascata econômica que desregula o orçamento de famílias vulnerabilizadas, majoritariamente negras e chefiadas por mulheres. O aumento induzido pelo clima no custo da energia e dos alimentos básicos gera um estado contínuo de estresse financeiro, onde a escolha diária entre pagar a conta de luz ou comprar comida se torna uma violência psicológica cotidiana.
Diante desse diagnóstico, fica evidente que a resposta pública ao Super El Niño não pode se limitar à reconstrução de infraestruturas físicas ou à distribuição de donativos após as tragédias. Existe uma infraestrutura emocional e psicossocial que está desmoronando sob o peso do descaso climático. Mitigar essa crise exige a inclusão urgente da saúde mental nas políticas públicas de adaptação climática, com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) nas periferias e territórios tradicionais, garantindo que o suporte psicossocial e o cuidado com o trauma deixem de ser privilégios e passem a ser ferramentas essenciais de sobrevivência e resistência coletiva.