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Pessoas com condições genéticas e neurológicas também foram e são institucionalizadas
A reestruturação do sistema de saúde mental fechou os grandes hospitais do passado, mas o confinamento de pessoas com condições genéticas e neurológicas continua operando de forma contínua.

30 de julho de 2026
O processo de enclausurar mentes e corpos que fogem ao padrão social é uma prática histórica e estrutural que vai muito além da conhecida institucionalização da loucura ou dos transtornos mentais graves. Pessoas com condições genéticas e neurológicas, como paralisias e síndrome, foram, e continuam sendo, rotineiramente empurrados para o isolamento e para a cronificação.
Ao longo dos séculos de consolidação do modelo biomédico e industrial, o valor de um ser humano passou a ser medido por sua capacidade produtiva e conformidade corporal. Quem demandava cuidados contínuos ou apresentava formas singulares de desenvolvimento cognitivo e motor era visto como um fardo social e financeiro.
Diferente do sofrimento mental, que costuma eclodir na juventude ou idade adulta, as pessoas com variações neurológicas e genéticas severas eram frequentemente separadas da sociedade ainda na infância. Elas eram entregues a asilos, abrigos de caridade e sanatórios devido à total ausência de uma rede estatal de apoio que fornecesse educação adaptada, reabilitação e suporte financeiro para as famílias, além do forte estigma social que levava muitas famílias a esconderem esses membros em clínicas particulares vitalícias.
Uma vez dentro dessas instituições fechadas, o ambiente asilar destrói a subjetividade e as potencialidades do indivíduo por meio de rotinas rígidas, sedação química contínua e a perda progressiva dos vínculos com o mundo exterior. A pessoa perde suas formas singulares de comunicação, sua mobilidade física é reduzida pelo confinamento e, com o passar das décadas, sua identidade passa a ser a própria instituição. O diagnóstico inicial perde o sentido prático, pois o sujeito é transformado em um morador crônico do sistema, cuja única barreira para a liberdade já não é uma condição biológica, mas sim a completa falta de referências de vida em comunidade.
Os dados e censos psicossociais realizados ao longo das últimas décadas em hospitais de custódia e grandes asilos mostram que uma parcela massiva dos residentes internados de forma ininterrupta por dez, vinte ou trinta anos é composta por pessoas com variações intelectuais severas e condições neurológicas que simplesmente foram abandonadas pelo ambiente familiar e pelo Estado. Historicamente, nas grandes colônias asilares do Brasil, como o Hospital Colônia de Barbacena, estima-se que a imensa maioria dos internos não possuía diagnóstico de sofrimento psíquico, sendo composta por pessoas com epilepsia, paralisia cerebral e minorias sociais indesejadas.
A perpetuação desse ciclo ocorre porque a sociedade ainda falha em oferecer alternativas reais de liberdade. Embora o país conte atualmente com os Serviços Residenciais Terapêuticos para acolher as pessoas egressas de longas internações, o número de vagas disponíveis ainda é amplamente insuficiente para absorver a demanda histórica de desinstitucionalização de sujeitos que necessitam de cuidados contínuos.
Com o fechamento dos hospitais psiquiátricos tradicionais, o confinamento migrou para os manicômios judiciários (HCTP), onde sujeitos com limitações intelectuais severas enfrentam penas perpétuas. Esse público também é empurrado para Comunidades Terapêuticas e abrigos privados por famílias exaustas e sem suporte estatal. Fora das instituições, o cenário é de exclusão prévia, já que barreiras escolares e sociais graves reduzem drasticamente o acesso desse grupo à educação básica e à autonomia financeira, perpetuando o ciclo de dependência que culmina no asilamento definitivo.