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A cidade é antimanicomial?

A luta antimanicomial também acontece nas ruas, nas praças, no transporte público e na forma como as cidades tratam pessoas em sofrimento psíquico.

A cidade é antimanicomial?

16 de maio de 2026

Por desinstitute

A luta antimanicomial também passa pela forma como as cidades são organizadas. O cuidado em liberdade depende da existência de espaços públicos acessíveis, convivência comunitária, circulação, acolhimento e participação social. No entanto, grande parte das cidades brasileiras continua estruturada a partir da exclusão de pessoas consideradas indesejáveis, improdutivas ou incompatíveis com a lógica urbana dominante. Pessoas em sofrimento psíquico, em situação de rua ou marcadas pela pobreza frequentemente são tratadas como problema de segurança, sujeira urbana ou ameaça à ordem pública.

A arquitetura das cidades mostra prioridades políticas: bancos divididos para impedir permanência, remoções forçadas, ausência de equipamentos públicos de convivência e políticas de higienização social demonstram como determinados corpos continuam sendo afastados do espaço urbano. Em muitos casos, abordagens violentas substituem estratégias de cuidado territorial e fortalecimento de vínculos sociais. O resultado é a ampliação da exclusão justamente para aqueles que mais necessitam de políticas públicas integradas de saúde, assistência social, moradia e cultura.

A RAPS foi criada para romper com o isolamento institucional e fortalecer práticas baseadas na convivência social, na autonomia e na garantia de direitos. Entretanto, a precarização das políticas públicas e o avanço de discursos punitivos dificultam a construção de cidades capazes de acolher a diferença e sustentar relações coletivas de cuidado.

Além disso, pessoas em sofrimento psíquico continuam sendo alvo frequente de violência policial, criminalização e intervenções coercitivas, especialmente quando atravessadas por racismo, pobreza e exclusão social. Em vez de ampliar redes de cuidado territorial, parte do poder público responde ao sofrimento com vigilância, expulsão e contenção. Essa lógica reforça formas contemporâneas de segregação incompatíveis com os princípios da luta antimanicomial e dos direitos humanos.

Faz-se necessário questionar quem pode ocupar os espaços públicos sem ser perseguido, quem tem direito à convivência e quais vidas são consideradas legítimas no cotidiano urbano. Também é urgente defender uma sociedade sem manicômios, o que  implica construir cidades menos violentas, menos excludentes e comprometidas com políticas públicas de cuidado em liberdade.

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