Notícias e publicações
A tragédia anunciada de Gerson, o “Vaqueirinho”
O caso do “Vaqueirinho de João Pessoa” mostra o fracasso do Estado na proteção e garantia de direitos, exigindo o fortalecimento de políticas públicas que promovam a dignidade humana

3 de dezembro de 2025
Gerson de Melo Machado, um jovem de 19 anos apelidado de “Vaqueirinho”, foi atacado e morto por uma leoa após invadir seu recinto em um zoológico de João Pessoa. Essa fatalidade mostra a falência do Estado na garantia de direitos e na proteção integral de crianças e adolescentes.
Segundo relatos, incluindo o da conselheira tutelar Verônica Oliveira que acompanhava o caso, Gerson carregava um histórico de vulnerabilidades e convivia com um sofrimento psíquico grave. Dentre seus sonhos, estava o de viajar à África para cuidar de leões.
O triste ocorrido tem sido palco de uma onda de argumentos cruéis, que culpabilizam a vítima e transformam seu sofrimento em espetáculo.
Além disso, muitos comentários têm resumido as inúmeras falhas estatais no cuidado de Gerson desde sua infância, a seu transtorno mental, como se fosse possível separá-lo de todo o contexto social.
Algumas figuras políticas da extrema direita têm utilizado o caso, inclusive, para defender o retorno de instituições manicomiais, como se essas fossem capazes de resolver casos como o de Gerson.
Além de reforçar ideias simplistas que ignoram a história por trás da luta pela substituição desses espaços pela Rede de Atenção Psicossocial, desconsideram que sem políticas públicas verdadeiramente consistentes e que abranjam aspectos amplos da vida de um indivíduo e de sua comunidade, nenhum cuidado é possível.
Não é possível se falar em cuidado efetivo em saúde mental sem acesso garantido à moradia, cultura, renda, alimentação, segurança, educação e redes de apoio sólidas.
O caso de Gerson mostra não somente a importância do fortalecimento efetivo da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), mas também de políticas públicas de assistência que possam assegurar a defesa da dignidade humana.
É impossível falar em cuidado em um Estado que aceita a precarização da vida como normalidade e, em seguida, atribui toda a responsabilidade ao indivíduo.
Cuidar de fato exige a presença ativa do Estado, investimento contínuo e a eleição de representantes comprometidos com a valorização da vida. É imperativo que a morte de Gerson transcenda a condição de mais uma manchete e se torne um alerta sobre as consequências devastadoras do nosso fracasso coletivo em prover cuidado e dignidade.