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Bem Viver: caminhos coletivos e contracoloniais para o cuidado

Pensar a saúde a partir do Bem Viver é reconhecer que o sofrimento psíquico tem causas históricas, sociais, territoriais e afetivas.

Bem Viver: caminhos coletivos e contracoloniais para o cuidado

16 de junho de 2025

Por desinstitute

Diante de um mundo cada vez mais adoecido pela pressa, pelo consumo e pelo individualismo, o Bem Viver chega como uma proposta radical de reorientação da vida e como uma filosofia ancestral, com raízes nas cosmovisões de povos originários da América Latina, em especial os povos andinos e amazônicos. Trata-se de uma ruptura com a ideia de “desenvolvimento” e uma aposta em outras formas de existir, baseadas na coletividade, na relação equilibrada com a natureza e no cuidado como eixo da vida em comum.

O termo “Buen Vivir” foi difundido politicamente no Equador e na Bolívia, chegando a compor as Constituições desses países no início dos anos 2000. O economista equatoriano Alberto Acosta é um dos principais nomes que ajudaram a traduzir essas sabedorias ancestrais em críticas contemporâneas ao modelo capitalista e extrativista. Para ele, o Bem Viver não é uma alternativa de desenvolvimento, mas sim uma alternativa ao desenvolvimento: um convite a pensar o mundo a partir de outras matrizes culturais e epistêmicas.

Ao lado de Acosta, autores como Eduardo Gudynas e Miriam Lang aprofundaram o debate sobre os limites do pensamento ocidental moderno. Lang, em especial, tem articulado o Bem Viver a uma perspectiva ecofeminista e descolonial, destacando a importância dos territórios, dos laços comunitários e da resistência cotidiana como formas de cuidado coletivo e sustentação da vida.

No Brasil, essa discussão se conecta diretamente às lutas por despatologização do sofrimento psíquico, às práticas da saúde coletiva e às epistemologias negras e indígenas. 

Ailton Krenak, pensador e líder do povo krenak, contribui com uma visão sobre o que adoece o mundo: a perda da nossa relação com o sonho, com o tempo e com a terra. Para ele, o Bem Viver está em recuperar a experiência do encantamento, da escuta, da lentidão e do pertencimento ao coletivo. No livro “A vida não é útil” ele rejeita a lógica de produtividade que esmaga corpos e subjetividades.

Autoras e autores da psicologia comunitária e da saúde coletiva também abriram caminhos para pensar uma saúde mental enraizada em território, memória e cuidado compartilhado. Emilia Rabelo, por exemplo, denuncia o epistemicídio de saberes indígenas no campo da saúde e propõe uma clínica intercultural que respeite os modos de cura ancestrais. Outros nomes, como Benedetto Saraceno, apontam a importância de romper com a psiquiatria que medicaliza o sofrimento e propõe um cuidado centrado nas relações e na escuta do contexto de vida de cada pessoa.

No campo das práticas, o Bem Viver se realiza em experiências como rodas de cuidado, mutirões comunitários, hortas coletivas, territórios de afeto, redes de solidariedade e de resistência. Tudo isso desafia a lógica do isolamento, da individualização da dor e da intervenção tecnicista. A proposta é reencantar o cuidado e devolver à comunidade o papel de protagonismo na produção da saúde mental.

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