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Estamira: o pensamento crítico silenciado pelo diagnóstico e pela marginalização

A história de Estamira expõe o que o modelo manicomial tenta esconder: a exclusão de corpos indesejáveis pelo sistema.

Estamira: o pensamento crítico silenciado pelo diagnóstico e pela marginalização

22 de maio de 2025

Por desinstitute

Estamira Gomes de Sousa nasceu em 1941, no Rio de Janeiro. Trabalhou como empregada doméstica e catadora de materiais recicláveis. Viveu em situação de extrema pobreza e vulnerabilidade por grande parte da vida. 

Durante anos, trabalhou no aterro sanitário de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), onde enfrentava condições desumanas. Foi nesse local que, aos 63 anos, foi descoberta pelo fotógrafo e cineasta Marcos Prado.

Estamira foi diagnosticada com esquizofrenia. Passou por diversas internações psiquiátricas, onde foi submetida a contenções físicas, uso forçado de medicamentos e práticas de exclusão e silenciamento.

O documentário “Estamira” (2004), dirigido por Marcos Prado, documenta sua vida, seus discursos e sua relação com os serviços de saúde mental. O filme ganhou reconhecimento internacional e virou referência no debate sobre manicômios e direitos humanos.

Estamira fazia críticas diretas ao que chamava de “sistema dos poderosos”, questionava instituições religiosas, políticas e médicas. Suas falas, tratadas como delírios pela psiquiatria, mostram reflexões sobre desigualdade, manipulação e abandono.

Embora seu discurso fosse associado à loucura, ele se baseava na vivência concreta de violações, racismo, pobreza e violência institucional. Suas palavras expressavam os efeitos sociais da exclusão e da medicalização da miséria.

Estamira morreu em 2011, aos 70 anos, por complicações de saúde. Não teve o reconhecimento merecido em vida. Sua história continua sendo um exemplo da forma como o sistema trata pessoas pobres, negras, mulheres e rotuladas como “loucas”.

Sua trajetória mostra como o diagnóstico psiquiátrico, muitas vezes, funciona como instrumento de controle social. Estamira foi marginalizada não por “delirar”, mas por denunciar a realidade.

 

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