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Fuga de adolescentes expõe denúncias e violência na Clínica Recanto, financiada pelo governo do DF
A recente fuga de duas adolescentes da Clínica Recanto, no Distrito Federal, mostra mais uma vez o que a luta antimanicomial denuncia há décadas.

8 de agosto de 2025
Com as denúncias que vieram a público após a repercussão do caso, novamente vemos relatos de maus-tratos, negligência, violações de direitos e abusos físicos e psicológicos cometidos dentro da instituição, o que mantém práticas asilares e coercitivas que contrariam frontalmente a Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216/2001).
Com duas unidades, em Brazlândia e Taguatinga e nomes diferentes para o mesmo CNPJ, a Clínica Recanto se apresenta como Instituto de Psiquiatria e Orientação Psicossocial. Mas, por trás da fachada de “tratamento humanizado”, o lugar tem denúncias recorrentes, avaliações negativas, e um padrão de violação de direitos.
Essa violência ainda é financiada com recursos públicos
Entre 2018 e 2022, mais de R$ 10 milhões saíram dos cofres do governo do Distrito Federal para manter em funcionamento uma instituição que reforça o encarceramento manicomial, inclusive de crianças e adolescentes, com relatos de amarras, contenções e humilhações que além de ir contra às diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), também desrespeita o Estatuto da Criança e do Adolescente.
A quem interessa manter esse tipo de “assistência”?
Certamente não às pessoas em sofrimento psíquico, que seguem sem acesso a serviços públicos substitutivos, como CAPS 24h, residências terapêuticas e cuidado em liberdade. O DF ocupa uma das piores posições em cobertura de CAPS no país, e mesmo assim opta por seguir financiando instituições que violam sistematicamente os princípios da Reforma Psiquiátrica.
Além disso, o caso expõe um conluio entre o público e o privado
Enquanto faltam leitos em hospitais gerais, equipes nos territórios e financiamento da RAPS, clínicas privadas acumulam contratos milionários com o Estado, muitas vezes sob a chancela da justiça, que autoriza internações compulsórias em espaços que não garantem nenhuma segurança, dignidade ou cuidado real.
Portanto, o que está em jogo é a manutenção de uma política de morte, que converte o sofrimento em lucro e ignora deliberadamente os caminhos da Reforma Psiquiátrica e da saúde pública comunitária.