Notícias e publicações
O que significa ser saudável?

2 de agosto de 2026
O que significa, afinal, ser saudável? Embora a resposta pareça simples, a forma como entendemos a saúde é histórica e atravessada pelos valores de cada época. Nas últimas décadas, esse conceito passou a incorporar um conjunto crescente de expectativas relacionadas à produtividade, ao autocontrole e à capacidade de manter um desempenho constante em todas as dimensões da vida.
Estar saudável deixou de significar apenas não adoecer, uma vez que hoje, espera-se que o indivíduo seja produtivo no trabalho, mantenha uma rotina disciplinada de exercícios físicos, tenha uma alimentação considerada adequada, administre suas emoções, cultive relações satisfatórias, durma bem, seja financeiramente organizado e preserve uma atitude permanentemente positiva diante das adversidades. A saúde passa a ser apresentada como um projeto individual de aperfeiçoamento contínuo.
Essa mudança acompanha transformações mais amplas na organização da vida social e do trabalho, nas quais o desempenho se torna um parâmetro para medir o valor das pessoas. Nesse contexto, o cuidado com a saúde passa a ser tratado como uma obrigação moral e a incapacidade de corresponder a esse ideal frequentemente é interpretada como falta de disciplina.
Essa lógica produz efeitos importantes sobre a maneira como compreendemos o sofrimento visto que questões relacionadas à exaustão, à ansiedade ou ao esgotamento tendem a ser tratadas como falhas individuais, mesmo quando estão associadas a jornadas de trabalho extensas, insegurança econômica, desigualdades sociais, violência ou ausência de políticas públicas. Quando é atribuída a responsabilidade ao indivíduo, reduz-se o espaço para discutir as condições sociais que também determinam a saúde.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han observa que a sociedade contemporânea já não se organiza principalmente pela disciplina e pela proibição, mas pela exigência permanente de desempenho. A liberdade de “poder fazer tudo” converte-se em pressão para produzir cada vez mais, inclusive sobre si mesmo. Nesse cenário, descansar pode ser visto como improdutivo, adoecer como fracasso e o cuidado como mais uma tarefa a ser otimizada.
Logo, vale refletir sobre o próprio modelo de saúde que vem sendo produzido, pois a saúde passa a ser medida pela capacidade de manter alta performance em todas as esferas da vida, corre-se o risco de transformar o cuidado em mais uma forma de cobrança e de invisibilizar os fatores coletivos que condicionam o bem-estar.