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Quando o clima ameaça o cuidado 

Desastres ambientais mostram a urgência de integrar saúde mental e políticas ambientais.

Quando o clima ameaça o cuidado 

27 de dezembro de 2025

Por desinstitute

Os impactos ambientais que têm se intensificado nos últimos anos mostram que enchentes, queimadas e desastres climáticos não produzem apenas perdas materiais, mas também interrompem rotinas de cuidado, desestruturam territórios e ampliam o sofrimento psíquico de comunidades inteiras. 

Sempre que unidades de saúde são isoladas por alagamentos, ou quando equipes não conseguem circular pelos bairros atingidos ou quando famílias são obrigadas a deixar suas casas, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) é diretamente comprometida, já que o cuidado em liberdade depende de vínculos, presença territorial e continuidade no atendimento.

A cada evento extremo, observamos que populações vulneráveis enfrentam camadas adicionais de sofrimento, pois lidam simultaneamente com o medo, o luto, a insegurança alimentar, a perda de documentos, a desorganização da rotina e a ausência de suporte institucional. Esses fatores se somam às desigualdades já existentes e mostram como o clima e o cuidado estão profundamente entrelaçados.

Assim, fica evidente que políticas públicas de saúde mental não podem ser formuladas de maneira isolada, porque a realidade impõe a necessidade de integrar planejamento ambiental, proteção social e estratégias de prevenção.

Quando a resposta do Estado se limita a ações emergenciais e desarticuladas, o impacto sobre a saúde mental coletiva se torna ainda mais profundo. Por isso, é fundamental que a elaboração de políticas considere desde o fortalecimento da RAPS até a criação de planos intersetoriais que envolvam defesa civil, assistência social, habitação e proteção ambiental. Sem essa integração, o cuidado fica vulnerável às crises, e territórios já marcados por desigualdades permanecem expostos a novos ciclos de adoecimento.

A sustentabilidade do cuidado começa no reconhecimento de que proteger o ambiente também é proteger vidas, vínculos e a possibilidade de existência digna. 

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