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Quando o problema é tratado como individual, quem se beneficia?
A psicopolítica neoliberal e a urgência de despsicologizar o sofrimento para além da responsabilização individual.

9 de agosto de 2026
A noção de psicopolítica neoliberal, amplamente discutida por Byung-Chul Han, descreve uma mutação nas formas de poder contemporâneas que deixa de operar prioritariamente por coerção externa para se infiltrar na subjetividade, reorganizando desejos, expectativas e modos de vida.
Nesse cenário, o controle se torna mais eficiente ao se apresentar como liberdade, uma vez que os indivíduos passam a se autogerir segundo parâmetros de desempenho, produtividade e constante otimização de si. Tal dinâmica encontra ressonância em diretrizes globais de promoção da saúde que, embora fundamentais, como as defendidas pela OMS, podem ser apropriadas pelo mercado e ressignificadas em termos de performance individual, deslocando o foco das condições estruturais para a responsabilização do sujeito.
Ao mesmo tempo, políticas públicas como as do SUS e orientações do Ministério da Saúde reconhecem a saúde mental como resultado de múltiplos determinantes sociais, incluindo renda, trabalho, acesso a direitos e condições de vida. No entanto, a racionalidade neoliberal tende a mascarar essas dimensões ao promover a ideia de que bem-estar e sofrimento psíquico são questões essencialmente individuais.
Assim, discursos que enfatizam motivação constante, pensamento positivo e autogerenciamento acabam por produzir um deslocamento perigoso, no qual a exaustão e a ansiedade deixam de ser compreendidas como respostas a contextos sociais adversos e passam a ser interpretadas como falhas pessoais.
Nesse contexto, a psicopolítica opera por meio de um imperativo de autodesempenho que transforma cada indivíduo em um projeto permanente de melhoria, reforçando a lógica da autoexploração. A exigência contínua de produtividade e atualização, intensificada pela conectividade digital, produz sujeitos que se cobram incessantemente e internalizam métricas externas como critérios de valor próprio.
O resultado é um ciclo de esgotamento que se retroalimenta, pois quanto mais se falha em atingir padrões inalcançáveis, mais se intensifica a busca por soluções individualizadas, muitas vezes mediadas por produtos, discursos e práticas que prometem alívio imediato, mas não enfrentam as causas estruturais do sofrimento.
Diante desse quadro, emerge a necessidade de um movimento crítico que alguns autores identificam como despsicologização, entendido não como rejeição da psicologia enquanto campo de saber, mas como recusa de sua instrumentalização para reforçar mecanismos de controle. Trata-se de reorientar o olhar, deslocando-o do indivíduo isolado para as relações sociais, políticas e econômicas que atravessam a experiência subjetiva.
Esse processo implica esvaziar a carga de exigências internalizadas que sustentam a lógica da performance, criando espaço para outras formas de existência que não estejam subordinadas exclusivamente à produtividade e à validação constante.