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Quem tem direito de enlouquecer?
Todo mundo apoia a saúde mental até encontrar alguém em sofrimento real.

14 de maio de 2026
A sociedade contemporânea passou a falar mais sobre saúde mental, porém essa abertura ainda opera dentro de limites muito bem definidos. O sofrimento psíquico costuma ser aceito apenas quando continua silencioso, produtivo e socialmente administrável. Nas redes sociais, transtornos emocionais frequentemente aparecem transformados em estética, linguagem de consumo ou performance de autocuidado, enquanto experiências reais de crise seguem sendo tratadas com medo, rejeição e afastamento. Existe uma tolerância seletiva ao sofrimento mental que desaparece quando ele interrompe rotinas, desafia normas sociais ou escapa da lógica da produtividade.
Ao longo da história, pessoas consideradas desviantes foram isoladas em nome da ordem social. Embora a Reforma Psiquiátrica brasileira tenha produzido avanços fundamentais ao defender o cuidado em liberdade e a substituição do modelo manicomial por serviços territoriais, comunitários e interdisciplinares, essa lógica da exclusão ainda permanece presente em diferentes práticas e discursos. Muitas pessoas em sofrimento psíquico continuam sendo alvo de violência institucional, abandono familiar, criminalização e invisibilização, especialmente quando vivem em situação de rua, enfrentam pobreza ou não conseguem corresponder às exigências de desempenho impostas pela sociedade contemporânea.
Segundo o Ministério da Saúde e a OMS, o cuidado em saúde mental deve estar baseado na garantia de direitos humanos, na convivência comunitária e no fortalecimento da autonomia dos sujeitos. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi construída justamente para superar práticas centradas no isolamento e para reconhecer que o sofrimento psíquico não pode ser reduzido a uma questão individual desconectada das desigualdades sociais, econômicas e raciais que atravessam a vida cotidiana. Ainda assim, o crescimento de discursos punitivistas e soluções simplificadoras mostra como parte da sociedade continua enxergando a diferença como ameaça e não como dimensão legítima da experiência humana.
O filósofo Byung-Chul Han aponta que a sociedade do desempenho produz sujeitos pressionados a manter alta produtividade, estabilidade emocional e capacidade constante de adaptação. Nesse contexto, experiências de sofrimento passam a ser toleradas apenas quando podem ser rapidamente reorganizadas em narrativas de superação. Quando isso não acontece, muitas pessoas deixam de ser vistas como sujeitos de direitos e passam a ser tratadas como problema social. O resultado é uma cultura que fala sobre saúde mental ao mesmo tempo em que rejeita manifestações concretas de sofrimento, crise e vulnerabilidade.
Neste mês da Luta Antimanicomial, é necessário perguntar quem realmente tem direito ao cuidado, à escuta e à convivência em liberdade. Defender uma sociedade sem manicômios significa também enfrentar práticas cotidianas de exclusão, recusar políticas baseadas no isolamento e reconhecer que o sofrimento psíquico não pode ser tratado como falha moral, desvio social ou obstáculo à produtividade. A luta antimanicomial continua atual porque ainda existem formas contemporâneas de silenciamento, controle e segregação que operam contra aqueles que não conseguem se enquadrar nas expectativas sociais dominantes.